Aprovação do fim da escala 6x1 pela Câmara dos Deputados é vitória histórica da classe trabalhadora

Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Após intensa mobilização social, a Câmara dos Deputados aprovou, na noite da quarta-feira (27), o fim da escala 6x1. A medida prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. Trata-se, sem dúvidas, de uma das maiores conquistas da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas.

Histórico de mobilização

A aprovação é resultado de uma mobilização histórica das trabalhadoras e dos trabalhadores. No Brasil, marcos como a Constituição de 1934, que estabeleceu a jornada de 48 horas semanais, e a Constituição de 1988, responsável pela redução para 44 horas, ajudaram a construir o caminho até este momento.

A mobilização atual ganhou força em 2023, impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), fundado por Rick Azevedo (atual vereador do Rio de Janeiro), que reuniu milhões de assinaturas para pressionar o Congresso Nacional. A pauta foi apresentada como a PEC nº 8/2025 pela deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e rapidamente tomou as ruas, com atos realizados em diversas regiões do país.

O impacto humano

A urgência da mudança é sustentada por dados alarmantes sobre a saúde da população trabalhadora. A escala 6x1 contribui diretamente para o desgaste físico e mental. A pesquisa “Vivo apenas para trabalhar: os impactos da escala 6x1 na saúde e na vida social de trabalhadoras e trabalhadores”, realizada pela UFF e pela Fiocruz, aponta que 97% dos entrevistados consideram que esse modelo prejudica a saúde física e 94% afirmam que afeta a saúde mental.

Levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) também relaciona jornadas excessivas a centenas de milhares de mortes por doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. Os relatos reunidos nas pesquisas revelam ainda exaustão crônica, dores intensas e uso frequente de analgésicos e antidepressivos para suportar a jornada de trabalho.

Quem se beneficia?

Cerca de 14 milhões de brasileiros submetidos atualmente à escala 6x1 serão diretamente impactados pela nova legislação. As mulheres são especialmente favorecidas, já que frequentemente acumulam dupla jornada, conciliando trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados familiares. Os jovens também estão entre os principais beneficiados, diante das dificuldades para equilibrar estudo, trabalho e descanso.

O Brasil vai quebrar?

Ao contrário do que afirmam setores contrários à medida, o estudo “Viabilidade econômica para redução da jornada de trabalho no Brasil” demonstra que a economia brasileira possui condições de absorver essa transformação. Entre 2012 e 2024, o país registrou crescimento de 25% no Valor Adicionado Bruto — indicador que mede a riqueza gerada — e aumento de 12% na produtividade do trabalho.

Experiências internacionais mostram que trabalhadores com mais tempo de descanso cometem menos erros e apresentam maior produtividade. A redução da jornada também pode estimular a geração de empregos e contribuir para a diminuição das emissões de gases de efeito estufa.

Os desafios ainda não acabaram

Apesar da vitória conquistada na Câmara dos Deputados, o texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado. Na quinta-feira (28), um grupo de 36 senadores ligados ao setor produtivo apresentou uma proposta alternativa que flexibiliza o fim da escala 6x1 ao permitir negociações por acordo individual, convenção coletiva ou “livre pactuação contratual direta”. A proposta ameaça o núcleo da medida aprovada na Câmara ao abrir espaço para negociações marcadas pela desigualdade entre patrões e trabalhadores.

“Demos um passo histórico na luta por condições de trabalho mais dignas no Brasil. O fim da escala 6x1 é resultado direto da mobilização da classe trabalhadora, que ocupou as ruas, pressionou o Congresso e transformou essa pauta em uma demanda nacional. Mas a luta ainda não terminou. O Senado já articula formas de flexibilizar direitos, e é fundamental manter a mobilização para impedir retrocessos e garantir a aprovação integral do fim da escala 6x1”, afirmou Pedro Mandagará, 1º tesoureiro da ADUnB.

 

Publicado em 29 de maio de 2026

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