ADUnB marca presença em Mutirão Nacional pela Soberania
O Mutirão pela Soberania Nacional e Conferência do Desenvolvimento foi realizado nesta quarta-feira (25/02), em formato híbrido e simultaneamente em diferentes estados do país. Na capital federal, as atividades aconteceram presencialmente no Sindsep-DF, com transmissão ao vivo pelo YouTube, reunindo docentes, pesquisadores, representantes de movimentos sociais e entidades sindicais.
A iniciativa integra o processo da Conferência da Soberania Nacional, que se estende até junho de 2026 e busca construir subsídios para um projeto nacional soberano, sustentável, democrático, inclusivo e socialmente justo. Ao longo do dia, os debates trataram da soberania digital, do papel do Estado na política tecnológica e dos desafios colocados pela nova conjuntura do mundo multipolar.
Em Brasília, a programação contou com dois debates. A Mesa 1, teve como tema “Software Livre, Soberania Nacional e o Papel das Encomendas Tecnológicas Governamentais”, com participação de Maria Luiza Pereira (diretora da ADUnB), Mateus Mendes (Rebrip) e Ricardo Bimbo (CTI-PT).
Na sequência, ocorreu a Mesa 2, com o tema “Proteção e processamento soberano de dados”. Participaram do debate Márcio Pochmann (IBGE), Verena Hitner (MCTI), João Cassino (UFABC) e Bianca Amaro (MCTI).
Os debatedores destacaram que a discussão sobre soberania tecnológica está diretamente relacionada ao tipo de Estado que o Brasil precisa construir para enfrentar os desafios da atual conjuntura internacional e da economia política digital.
Mateus Mendes ressaltou que o Brasil vive um impasse estratégico: ou rompe com a lógica neoliberal, que naturaliza a importação de soluções tecnológicas prontas, ou abre mão de qualquer projeto autônomo e soberano de desenvolvimento. Segundo ele, a ideia de que “se não temos no Brasil, compramos de fora” impede a construção de ecossistemas nacionais de inovação e reforça a dependência externa. Para Mendes, é papel do Estado investir em políticas que fortaleçam a produção tecnológica interna, sob pena de o país perpetuar como país subdesenvolvido.
Ricardo Bimbo, coordenador do Setorial de Ciência e Tecnologia do PT, alertou para o fato de que o software controla uma infraestrutura invisível e estratégica do país, envolvendo dados, algoritmos, plataformas tecnológicas e capacidades científicas e industriais. Ele destacou que a dependência de softwares proprietários estrangeiros implica riscos concretos de sanções, espionagem e perda de autonomia. Segundo Bimbo, não basta adquirir a “melhor solução” disponível no mercado internacional se ela não for pensada, controlada e desenvolvida pelo próprio país.
Educação, soberania e plataforma pública brasileira
A professora Maria Luiza Pereira trouxe a reflexão para o campo da educação em relação à informação, à comunicação na produção do conhecimento, enfatizando o papel do software livre na perspectiva da educação emancipadora. Em sua fala, ela destacou um importante movimento iniciado pela ADUnB no ano de 2025.
Maria Luiza lembrou que a diretoria da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília – Seção Sindical do ANDES-SN (ADUnB-S.Sind) foi autora da proposta que resultou no Texto Resolução (TR) 44 – “Pela plataforma pública brasileira, afirmando a soberania nacional”. A deliberação representa um avanço na defesa da autonomia, inclusive da ciência aberta.
O texto foi inicialmente apresentado no 43º Congresso do ANDES-SN, realizado entre os dias 27 e 31 de janeiro de 2025, mas, por falta de tempo para votação, foi remetido ao 68º Conad, que ocorreu de 11 a 13 de julho de 2025, aprovado com a seguinte redação final:
“Que o ANDES-SN lute pelo financiamento necessário ao desenvolvimento e manutenção de plataformas tecnológicas públicas, fortalecendo a integração de diferentes níveis de educação pública.”
Durante a mesa, Maria Luiza também fez a leitura da TR 44, colaboração da diretoria da ADUnB, reforçando a centralidade do tema da soberania digital para a educação pública. O texto, apresentado na íntegra, tem como subtítulo:
II – A PROBLEMATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO, TECNOLOGIAS E SOCIEDADE
“É urgente investir em banda larga e no desenvolvimento de Plataforma Pública Brasileira como condição de soberania nacional, superando a falsa oposição entre ensino presencial e a distância, pela autonomia docente de estabelecer o critério da pertinência ou não de mediação das linguagens multimídias, segundo a natureza da área de conhecimento disciplinar e profissional, garantindo à pessoa trabalhadora jovem, adulta ou idosa sua opção pelo ensino/aprendizagem presencial ou híbrido.”
Ao abordar o papel das universidades públicas nesse processo, Maria Luiza afirmou que o movimento docente deve assumir essa luta como parte da defesa da soberania nacional: envolvendo os saberes originários, ancestrais e populares, das ciências, das filosofias, das tecnologias, e das artes nas universidades brasileiras.
Ela destacou que o mutirão que estava sendo realizado naquele dia acende esperança, porque rapidamente diferentes setores estão aderindo ao processo. Segundo a professora, é nesse caminho que se constrói uma unidade de luta efetiva, para que o país possa, de fato, dizer ao mundo a que veio.
O dia seguiu com outras atividades em torno do tema da soberania e do desenvolvimento nacional, em particular, digital. Ao longo da programação, também foram debatidos o fortalecimento do Sistema Nacional de Inovação, as rotas tecnológicas estratégicas, os desafios da inteligência artificial, da computação quântica e da produção nacional de semicondutores, além das disputas geopolíticas que atravessam o cenário digital contemporâneo.
As discussões continuaram ao longo da tarde, articulando experiências de diferentes estados e ampliando o diálogo entre diferentes atores e esferas. Quem quiser acompanhar as transmissões e os debates realizados em Brasília e nas demais localidades pode acessar o conteúdo disponível no YouTube.
Transmissão:
https://www.youtube.com/@ConferenciadaSoberania
Mais informações:
https://www.conferenciadasoberania.com.br/p%C3%A1gina-inicial
Publicado em 26 de fevereiro de 2026