UnB reafirma papel de resistência frente às investidas da extrema direita
A Universidade de Brasília (UnB) foi palco de um importante momento de resistência, mobilização e debate. O evento “Em defesa da universidade pública frente às investidas da extrema direita”, realizado em 17 de junho no Anfiteatro 9 do Instituto Central de Ciências (ICC Sul), reuniu representantes de diversos setores comprometidos com a democracia, a educação pública, autonomia universitária e a liberdade de cátedra.
A atividade foi organizada pela Associação dos Docentes da Universidade de Brasília – Seção Sindical do ANDES-SN (ADUnB-S.Sind), em comemoração aos seus 47 anos, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), o Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE/UnB) e o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN).
A professora Maria Lídia Bueno Fernandes, presidenta da ADUnB, abriu o evento destacando o papel da universidade na promoção dos princípios humanistas e na superação das desigualdades. Segundo ela, o ato foi um convite à construção de unidade entre os segmentos da comunidade acadêmica em defesa da universidade pública e da democracia.
A universidade como alvo da extrema direita
Com mediação do professor Antônio Sérgio Escrivão Filho (ADUnB), a mesa de debate proposta pelo evento contou com o jurista e professor da Universidade de Oklahoma, Dr. Fábio de Sá e Silva e a professora da Faculdade de Comunicação da UnB e pesquisadora, Janara Sousa. O professor Fábio alertou para a ofensiva transnacional da extrema direita contra instituições acadêmicas e para o uso distorcido da liberdade de expressão para justificar censuras e ataques. Defendeu a Constituição de 1988 como ferramenta essencial de resistência.
A professora Janara destacou o papel das redes sociais na propagação de discursos de ódio e desinformação contra a universidade e seus profissionais. Relembrou o caso da professora Tatiana Leôncio, alvo de fake news desde 2012, e propôs que a UnB fortaleça institucionalmente a proteção de seus membros frente a essas violências digitais. Citou Darcy Ribeiro: “A crise da educação não é uma crise, é um projeto”.
A universidade como trincheira histórica
O ex-reitor José Geraldo de Sousa Júnior celebrou o evento como retomada do protagonismo da UnB: “Sem universidade autônoma, não há país soberano”. O decano de Ensino de Graduação, Tiago Araújo, alertou para o avanço de uma lógica autoritária e militarizada. Já Roberto Muniz, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), afirmou que “defender a ciência é defender o Brasil”.
Júlia Natura, da Assessoria Jurídica Universitária Popular Roberto Lyra Filho (AJUP/UnB), defendeu a extensão como eixo da universidade pública, instrumento de diálogo com saberes populares e ferramenta de transformação social.
Presenças políticas e solidariedade institucional
O ato reuniu parlamentares, lideranças sindicais e representantes da comunidade universitária. Autoridades prestaram solidariedade a docentes e estudantes atacados por ativistas da extrema direita e reafirmaram apoio à greve dos técnicos administrativos, em defesa da Universidade de Brasília e da valorização das carreiras.
O deputado distrital Max Maciel (PSol-DF)criticou o projeto neoliberal da extrema direita e reforçou a importância da unidade entre as forças progressistas. O parlamentar distrital, Fábio Félix (PSol-DF) repudiou os ataques à população LGBTQIA+ e à liberdade acadêmica. Jacy Afonso, presidente do PT-DF, alertou para a criminalização de lideranças populares e defendeu a construção de uma bancada progressista em 2026.
Gabriel Magno denunciou o uso do Judiciário para punir grevistas e reivindicou justiça tributária como fonte de financiamento da educação pública. A deputada federal Erika Kokay (PT-DF) defendeu a universidade como trincheira contra a necropolítica. Gabrielly Lopes, representando a senadora Leila do Vôlei (PDT-DF), destacou a centralidade da disputa comunicacional no atual cenário político. O senador Paulo Paim (PT-RS), em mensagem lida no evento, afirmou que “quando a universidade é atacada, o que está em jogo é o futuro do país”.
Representantes do governo federal e de entidades sindicais apontaram que o avanço da extrema direita está diretamente relacionado à crise do capitalismo, à precarização dos serviços públicos e à desinformação. Ricardo Capelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), associou o crescimento da extrema direita à estagnação econômica e à frustração popular diante da ausência de melhorias concretas. Defendeu a mobilização nas bases como caminho para enfrentar o autoritarismo.
Na mesma linha, Marivaldo Pereira, secretário de Assuntos Legislativos Ministério da Justiça e Segurança Pública (SAL/MJSP), alertou para o fortalecimento da extrema direita no parlamento e destacou a importância de proteger a liberdade acadêmica e combater a desinformação como parte dessa disputa política.
Blenda Cavalcanti, do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe), reforçou que o desmonte orçamentário das universidades serve ao projeto conservador e que é preciso disputar corações e mentes nas periferias, onde o Estado tem se ausentado.
Viviane Pires, da Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps), completou o diagnóstico, denunciando o sucateamento dos serviços públicos, a repressão às greves e o adoecimento de servidores. Defendeu a articulação com os movimentos populares como única via possível para a construção de uma sociedade justa e democrática.
Ação jurídica e resposta institucional
Leandro Madureira, da assessoria jurídica do Andes-SN, defendeu a liberdade de cátedra e lembrou decisões do Supremo Tribunal Federal que garantem o debate de gênero nas escolas e protegem os docentes. Larissa Rodrigues, assessora jurídica da ADUnB, reforçou que “a universidade é espaço de resistência e de crítica, e deve ser defendida como tal”.
UnB como Frente Democrática
As entidades realizadoras do evento encerraram com firmeza a defesa da universidade pública, autônoma e popular.
Chicão, presidente do SintFub, destacou a greve dos técnicos, que já dura quase 90 dias, como parte da resistência e defendeu a unidade entre estudantes, docentes e técnicos como barreira ao neofascismo. Raquel Dias, vice-presidenta do Andes-SN, denunciou os ataques coordenados da extrema direita, que perpassa pela criminalização das lutas à reforma administrativa, por fim, Dias convocou à mobilização nas ruas. “ É com a unidade na luta de todas as categorias que nós vamos vencer”. Já Maktub, coordenador do DCE/UnB, chamou a juventude à ação. Para ele, a universidade é um campo estratégico na luta contra o colapso social e climático e contra os retrocessos civilizatórios impostos pela extrema direita: “Não queremos ser a geração do fim do mundo, mas a do fim do capitalismo.”
Também marcaram presença, Hélio Queiroz (assessoria do deputado Reginaldo Veras), Luiz Araújo (representando o Partido Socialismo e Liberdade – PSOL na Câmara), Bárbara Cristina Oliveira (presidenta do DCE da Universidade do Distrito Federal – UnDF), Herbert Anjos (chapa eleita do Sindicato dos Professores do Distrito Federal – Sinpro-DF), Rosilene Corrêa (diretora da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE), Laura (vice-diretora da Faculdade UnB Ceilândia – FCE), Alexandre Bernardino (diretor da Faculdade de Direito da UnB) e representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em nome do presidente Leandro Grass.
Publicado em 23 de junho de 2025